Desenhista, Ilustrador, roteirista, um criador de mundos e de histórias que povoam as mentes de leitores brasileiros e norte-americanos. Com vários trabalhos publicados nos Estados Unidos, Europa e Ásia, Allan Goldman está lançando agora o Comando V, personagens que habitam as páginas de revista homônima da Editora Júpiter II.
Allan, pra situar o nosso leitor, por favor, diga pra gente quais personagens famosos de editoras gringas você já desenhou até agora.
ALAN GOLDMAN: Bom, desenhei Omac, Batman, Superman, Liga da Justiça, Jovens Titãs e o Fantasma.
Em território nacional você nunca deixou de produzir material independente. Qual é a principal distinção, além da questão financeira, entre a concepção de material para o mercado americano e para o meio nacional?
AG: Se por um lado a produção nacional não gera muito dinheiro, por outro ela permite uma liberdade artística muito grande, já que não existe uma indústria pressionando os autores. Acho que essa é a grande distinção. Trabalhar para o mercado americano exige cumprimento de prazos apertados e alinhamento artístico com o padrão de maior vendagem.
O que é o Comando V? Do que trata a história?
AG: O Comando V é antes de tudo uma homenagem aos quadrinhos de aventura da era de prata e de bronze. Grande momento das HQs de Super-Heróis na história. Apesar de ter nascido apenas na década de oitenta, essas duas eras me influenciaram de forma muito parecida. Minha criatividade artística sempre pende para esse tipo de material. Especificamente falando, o Comando V é uma equipe de Super-heróis que trabalha para o governo. Mas essa relação anda desgastada, pois o governo é constantemente alvo de denúncias de corrupção.
Cada membro da equipe tem um drama pessoal. Acho que isso tende a humanizar os personagens. Nenhum deles é perfeito. Essa que é a beleza do relacionamento humano, um busca apoio no outro. Buscamos superar nossas dificuldades com as virtudes daqueles que são nossos companheiros. Assim que funciona o Comando V. De início são desconhecidos trabalhando juntos. Mas ao longo do tempo vão aprendendo a se valorizar como amigos. É disso que quero tratar com as histórias do Comando V. Resumindo é uma história de amizade, acima de tudo.
Como surgiram os personagens? Poderia falar um pouco sobre eles?
AG: Surgiram da minha necessidade de contar histórias de aventuras tão divertidas e emocionantes como aquelas que eu lia quando era mais jovem. Cada um deles tem uma falha. Talvez isso não fique tão à vista quando se lê apenas a primeira edição. Mas contando com as outras histórias já escritas fica nítido o meu esforço para torná-los os mais humanos possíveis. Acho que vai ficar um texto muito longo se eu entrar em muitos detalhes. Mas dá pra fazer um resumo bem superficial. Alfa Negro é amargurado e rude. Pilha é bondoso e bem-humorado. Yeti não se compreende bem enquanto indivíduo, mas tem o maior dos corações. Taqui é carinhosa e atenciosa. Oculto é realmente um mistério. Pouco se sabe sobre sua personalidade, pois ele é muito fechado. Palhares é o Paizão da equipe. Sabe gratificar e punir na dose certa.
Quais as fontes de inspiração para a criação do universo desses personagens?
AG: Bom como já deixei bem claro a fonte mãe são os quadrinhos da era de prata e bronze. Agora, especificamente, eu só busquei personalidades que se encaixassem bem para render momentos de drama e comédia.
Desde sua concepção original até a versão que vemos publicada houve muitas alterações, em termos de conteúdo, ou em termos visuais, narativos?
AG: Sim, bastante modificações. Em breve estarei postando estudos de personagens, layouts de páginas e coisas do tipo no blog do comando V: www.vcomando.blogspot.com confiram. O personagem que mais mudou, visualmente, foi o oculto. O roteiro da primeira estória foi discutido e re-discutido por mim e pelo Jota (JJ Marreiro) várias vezes, até que chegássemos à um consenso.
Como é a sensação de desenhar seus próprios personagens?
AG: Muito bacana. Quando eles estão dentro de uma história e se comunicam com outros personagens e agem sobre determinados estímulos, eles simplesmente ganham vida. É como o Pinóquio. E pra ajudar eu simplesmente adoro os visuais dos personagens! Acho que são modernos mas sem perder o caráter de Super-herói.
O que o levou a desenhar histórias em quadrinhos e quando percebeu que esta poderia ser uma opção de profissão?
AG: Desenho histórias em quadrinhos desde criança. Eu achava lindo aqueles uniformes, as cores berrantes, os raios e tal. Comecei a tomar conhecimento da possibilidade de virar profissional quando a internet chegou na minha casa. Eu já estava no fim da minha adolescência. Comecei a pesquisar e descobri que tinham brasileiros trabalhando para editoras gringas através de agências. Daí fui atrás.
Que personagens atraem sua atenção hoje?
AG: Hoje gosto mesmo é de material adulto. Love Junkies, Druuna de Serpieri. A produção do Milo Manara. Do Horácio altuna. E principalmente o material do Jordi Bernet. Tenho acompanhado pouco as HQs da Marvel e DC. Não gosto muito do que andam produzindo hoje em dia.
Cientes de seu afã pela sétima arte gostaríamos de perguntar em que pontos você acha que existem similaridades nas linguagens do cinema e dos quadrinhos?
AG: Eita, muitas. Tanto é que a produção do cinema passa pelos storyboards, que são histórias em quadrinhos. Pra você fazer cinema, tem que ter uma série de conhecimentos que o Quadrinista tem. Angulações, narrativa, expressão corporal, iluminação, Criação ou escolha dos cenários, dos figurinos. É muita coisa parecida. heheheh. A diferença é que o cineasta tem uma equipe pra cuidar de cada coisa, enquanto o Quadrinista faz tudo sozinho.
A cada dia um número maior de quadrinhos ganha versões cinematográficas, quase a ponto de se criar um novo gênero. Qual a maior falha dessas adaptações?
AG: Na minha opinião é a falta de fidelidade ao material original. Tanto no quesito roteiro quanto no visual. Existe na minha opinião uma falta de respeito com as revistas em quadrinhos. Como se eles fossem um sub-produto que tem de ser lapidado para poder chegar ao cinema. Acaba que os roteiristas e produtores de cinema estragam a obra.
Há várias publicações nacionais de qualidade, e mesmo com a maioria padecendo do mal da falta de distribuição, os quadrinhos brasileiros continuam sendo editados e levados ao leitor, mesmo por meios informais. A que você atribui essa característica do quadrinho brasileiro em resistir e permanecer vivo mesmo sob condições adversas e sofrendo uma concorrência muitas vezes desleal em termos de distribuição e divulgação?
AG: Acho que é a paixão dos Quadrinistas. Porque dinheiro mesmo nós ganhamos muito pouco. Mas somos tão apaixonados por revistas em quadrinhos que continuamos assim mesmo. Paixão.
Obrigado pela entrevista, Allan. Vamos torcer pelo sucesso da revista para que possamos ver mais aventuras desses fabulosos personagens.
AG: Obrigado a vocês do Armagem e obrigado aos leitores do Comando V. :)

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Juntar um time criativo como JJ Marreiro e Allan Goldman é algo difícil de ver por aí, mesmo a nível mundial de quadrinhos. Não tem uma sombra de dúvida quanto ao sucesso dessa primeira edição. Parabéns pela entrevista e por mostrar a evolução visual dos personagens !!!
Adorei a matéria. Voces deviam postar com mais frequencia reportagens e matérias além dos quadrinhos.
Muito boa a entrevista,com esse grande artista,que é o Allan Goldman,tenho certeza de que o comando V,fará muito sucesso.pela qualidade que todos nós conhecemos.
Abraço a todos e parabéns pelo Blog.
Ensino na rede pública e sempre estimulo meus alunos a lerem gibis, a meu ver estes são a porta de entrada para o mundo da leitura.
Em tempos de internet os gibis digitais estão ganhando bastante espaço, mas sempre que posso incentivo a leitura de revistas. Gostei do tema dos super-heróis brasileiros, isto é um elemento importante para a autoestima das crianças.
Muita Sorte para o desenhista Allan Goldman e parabéns à equipe pela entrevista.
Os super-heróis são um gênero americano, criar super-heróis é propaganda americana alienante.
Associar o gênero dos super-heróis à ideologia policialesca norte-americana faz sentido, entretanto entender os super-heróis como um gênero exclusivamente associado a uma região do planeta é uma restrição à criatividade. E vale lembrar que o próprio super-homem (que originou o termo super-heróis - antes eram chamados apenas de heróis uniformizados) nada mais é que uma releitura do mito dos semi-deuses gregos como Hercules, Jasão ou Teseu.
Continuem comentando aí, pessoal.