Por onde começar ? ? ?

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Vamos imaginar que uma pessoa tenha um interesse repentino por quadrinhos. O que você recomendaria como leitura inicial? X-men? Novos Titãs? Cebolinha? V de Vingança?

 

Tarefa difícil essa. Principalmente porque os quadrinhos de banca são completamente inacessíveis (em termos de compreensão) ao leitor neófito. Ninguém mais pensa no leitor ocasional. E isso é uma das maiores falhas do quadrinho de hoje, que sobrevive às custas de alguns fanboys ricos que colecionam tudo. Em sua maioria os quadrinhos Marvel e DC estão imersos em sagas incompreensíveis que exigem do leitor a aquisição de várias revistas extras, especiais e toda sorte de edições caça-níqueis interligadas. É difícil encontrar uma série interessante que não possua ligações com outros milhares de títulos.

 

No meio da lambança não teria o menor receio de indicar o Superman de Gary Frank. Uma série de histórias coesas, coerentes, cujo texto (de Geoff Johns) empolga e que traz a melhor versão de Superman dos últimos 10 anos.

 

O Superman de Gary Frank não é um mastodonte anabolizado que precisa encolher os ombros e fazer cara de mongol para sumir na multidão. Em sua versão ele é apenas um homem normal, um cara em boa forma física...Algo como o Cristopher Reeve (do filme Superman I). E foi exatamente o biótipo e a fisionomia de Reeve que deram o tom à arte da série. A Lois Lane também é inspirada fisionomicamente na atriz Margot Kider. Em outras histórias, também desenhadas por Gary Frank, Lana Lang aparerece personificada por Annette O'toole que viveu Lana em Superman 3 e hoje encarna Martha Kent em Smallville. Já sua versão de Johnatan Kent presta homenagem a Richard Donner (diretor de Superman I).

 

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Que edições adquirir:

Superman #74, #75, #76 - Essas edições fecham um arco completo onde o Super é convocado para ajudar a Legião dos Super-Heróis.

Superman#80, #81 - Desta vez a ameaça é Brainiac e ele surge numa versão realmente ameaçadora confirmando que é um dos melhores adversários do famoso kriptoniano.

O ponto negativo é o fato de ter que comprar todas as edições para ler a história toda, mas é bem melhor do que colecionar Hulk contra o Mundo ou Crise sei-lá-o-quê.

 

Entre as encadernadas, as dicas começam com Watchmen e Cavaleiro das Trevas. Em comum as duas possuem o tratamento de texto que aproximou os quadrinhos do público adulto. Depois destas séries, originalmente publicadas nos anos 80, a sociedade passou a ver os quadrinhos com outros olhos. Hoje a grande maioria das revistas é escrita com um cuidado e uma maturidade que só foi possível depois de Watchmen, onde os super-heróis são usados para questionar a realidade, a ética, a moral, a política e a forma como o poder organiza e conduz a vida humana.

 

Em Cavaleiro das Trevas, Batman tem que enfrentar um novo inimigo que o impede de trazer justiça À sua Gotham: a velhice. Mas Batman não é de desistir fácil.

 

 

Densidade de tema também é o que propôs Neil Gaiman em seu Sandman. As edições encadernadas estão disponíveis em várias versões e ainda é possível encontrar as edições antigas em sebos. A desvantagem é a mesma dos mangás, não dá pra pegar Sandman com o bonde andando. O ideal é adquirir as encadernadas que possuem arcos fechados, ou começar a coleção do começo. Não é uma série de leitura fácil nem possui desenhistas impressionantes, mas o peso da série está na construção dos personagens, as relações entre eles e a maneira como o universo da série é construído.

 

Super-Homem as Quatro estações. Quatro revistas com arte de Tim Sale (o cara que faz as ilustrações no seriado Heroes) e textos de Jeph Loeb. Essa série mostra a transição na vida de Clark Kent quando ele troca Smallville por Metrópoles e foi o eixo sob o qual a telesérie Smallville foi concebida. É uma leitura divertida onde os personagens são bastante humanizados.

 

V de Vingança. A edição encadernada está disponível em lojas de quadrinhos e livrarias. A mini-série, cuja leitura é densa e pouco palatável para fãs de quadrinho-de-ação, deve ser difícil de achar em sebos.

Mais que uma figura solitária que luta contra um sistema corrupto usando táticas de guerrilha, uma inteligência afiada e um toque de teatralidade, V é um símbolo do pensamento crítico e da liberdade de expressão. Pontuada pelo mistério do início ao fim esta série é um conto sobre totalitarismo, sobre anarquia, sobre mudanças e sobre a reação de um homem que recusa-se a ficar impotente diante da injustiça. Para o protagonista a liberdade do povo está em descobrir que pode governar a si mesmo e não precisa da desigualdade e da injustiça de um sistema repressor. (Mais sobre V de Vingança aqui!)

 

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Mudando radicalmente de gênero e estilo, Calvin e Haroldo são uma ótima pedida para uma leitura leve, mas extremamente inteligente. As aventuras do garotinho loiro e seu tigre de pelúcia (que ganha vida a seus olhos quando adultos não estão por perto) começou nos jornais americanos e logo ganhou coletâneas mundo a fora. Os álbuns contem um bloco coeso de tiras que garantem boas risadas e até despertam novas óticas sobre o mundo infantil e sobre o mundo adulto.

 

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"Qualquer revista pode ser a primeira revista de alguém" essa máxima do escritor e editor Stan Lee é bastante ignorada pelas maiores editoras de quadrinhos de hoje. Entretanto, sabiamente, e talvez por possuir um público muito específico (apesar de gigantesco) o escritor, editor, empresário e desenhista Maurício de Souza utiliza este preceito em suas publicações. Este se torna mais um elemento a favor da grande exceção dos quadrinhos nacionais: A Turma da Mônica.

 

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Qualquer edição com a marca Turma da Mônica pode ser lida pelo leitor ocasional. Sem exigências de cronologia, sem interligações de títulos que prejudicam a unidade da revista. O formato Mônica HQs curtas com personagens diversos e mix próprios em cada revista fazem com que este seja o mais confortável formato editorial para o leitor. Você compra uma revista, entende todas as histórias e o que vai garantir a aquisição de outras revistas é que você sabe que há um padrão de qualidade nas histórias.

 

Por mais estranho que pareça a comparação os Westerns da Bonelli e as aventuras da Mônica possuem mais em comum do que aparentam. Ambos são sucessos editoriais e ambos possuem um profundo respeito pelo seu leitor. Suas revistas não exigem conhecimento prévio de eventos ou de personagens e seu formato editorial permite a leitura ocasional. Principalmente se estivermoa falando dos títulos: Almanaque Tex, Clássicos Tex, Tex Edição Histórica, Tex Gigante e Tex Edição de ouro. Todas essas trazem histórias completas sem continuação.

 

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As aventuras passadas no velho oeste americano envolvem os Rangeres Kit Carson, Jack Tigre, Kitty Willer e seu pai, o personagem que dá nome a série em aventuras com começo meio e fim e com uma lógica fílmica em histórias que superam em muito a maioria dos westerns de cinema modernos. A quadrinização formal (três tiras por página) a ausência de full pages e splash pages, a inexistência de quadrinhos sangrados e de painéis de impacto podem afastar os leitores acostumados à narrativa Image, mas garantem mais atenção aos acontecimentos e ao conteúdo textual. As cenas de tiroteios e perseguições são estudadas numa precisão que beira o doentio, pois as regras de narrativa visual são as mesmas usadas no cinema e na TV, como o contra-plano, a entrada e posicionamento de personagens em cena. Só pra exemplificar. Se no começo de uma cena Tex está a direita e Kit Carson à direita, esse posicionamento permanece até o fim da cena. Outra. Se os personagens indo para Carson City deslocam-se no quadrinho da direita para a esquerda, ao retornarem para o local anterior o retorno se dará vindo da esquerda para a direita. Observem isso em westerns e em filmes modernos é uma lógica cinematográfica que ajuda a posicionar geograficamente o leitor e o espectador.

 


Um assassino serial liga para a Polícia alguns minutos depois da meia noite avisando onde estará a próxima vitima. Verônica uma policial viciada e seu parceiro Rapouso caem em campo para investigar o caso, mas descobrem uma estranha ligação entre a policial e o assassino. Essa mini-série em três partes é uma das melhores produções brazucas no gênero policial e está disponível em lojas especializadas e pelo correio (contato: quadroimaginario@gmail.com). Sem cair nas apelações típicas dessas revistas quando são feitas no Brasil, Depois da Meia-Noite leva o leitor à sério e oferece uma série bem desenhada e bem escrita. Isso já seria o suficiente para a série sobressair no cenário do quadrinho nacional, mas a trama é tão envolvente que se a revista cair nas mãos de algum produtor de cinema ou TV é possível que venha a se tornar um sucesso também nessas mídias. A obra, vencedora do HQ Mix de Melhor Publicação Independente Especial, é uma produção de Laudo Ferreira Junior e Omar Vinolle criadores do Estúdio Banda Desenhada.


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Para mais dicas de leituras interessantes aconselho ouvir o HCast 01. Disponível em HCast. Germano Araujo, Caetano Neto e Guilardo Branco, 3 ávidos leitores (e produtores) dão ótimas dicas de quadrinhos  - e algumas delas até empataram com as minhas :)

 

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Outra fonte para descobrir quadrinhos interesantes e saber suas características com comentários sobre a arte e narrativa é o Universo HQ na seção reviews. Além disso os melhores e piores de cada mês são apontados no blog do universohq. Vale conferir, pois não é o melhor site sobre quadrinhos do Brasil à toa :)


Estas são dicas de leituras que acho legais e o critério de escolha dessa obras foi um tanto pessoal, mas é possível retornar com outras dicas em novos artigos, dependendo dos pedidos e comentários dos leitores aqui do armagem.





5 Comentários


Grande JJ!! Que beleza de texto! Como é bom ver que pensamos de modo muito semelhante, no que diz respeito à produção de hqs fechadas, sem desdobramentos gigantescos, por edições sem fim, deixando a cabeça do pobre leitor, que procura diversão e relaxamento, momentos de fuga da dura realidade! Como gosto de ler hqs mais antigas, que tinham começo,meio e fim. SIMPLES ASSIM! Espero que possamos mostrar com nossas produções nacionais, uma maneira agradável de apreciar quadrinhos, PARA TODOS OS LEITORES, NOVOS OU ANTIGOS! Parabéns pelo texto! Grande abraço!

Olá, JJ Marreiro. Muito bom mesmo esse texto. Parabéns! Tomei a liberdade de citá-lo e linka-lo em meu blog. Qualquer coisa, dê uma olhada.
Abração,

Cara, sensacional esse texto, Jota! Vou imprimir e divulgar o máximo possível!

Salve, grande JJ.

Valeu pelos comentários. Bacana mesmo!!
Realmente seria bacana ver uma versão carne e osso do "Depois da meia-noite". Quando escrevei esse roteiro há "séculos" atrás, realmente imaginei-o como um filme, aliás, como muitos devem fazer.

Grato pelo carinho e amizade de sempre, meu velho!

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